15 de agosto de 2021

Eu me tornei

 


(Sociedade dos poetas mortos - 1990)


A imagem da capa de "Feliz Ano Velho", de Marcelo Rubens Paiva, pairava sobre o telão. Era uma quente noite de verão, logo no início de março, daquelas que fazem essa estação se despedir em grande estilo. A classe estava abarrotada de aluno, um clássico de começo de ano em um cursinho popular. O ventilador, ou o que restou dele, não dava conta de aliviar o mormaço de dentro da sala. A ferrugem das carteiras, as bordas quebradas da lousa e os estilhaços da janela pareciam acentuar ainda mais o calor do nosso cenário.

Mesmo assim, alguns alunos se dispuseram a participar da reflexão a que eu lhes convidara: se você tivesse que se apresentar não como pessoa, mas como um livro, que livro você seria? Eu comecei me apresentando para eles como "Feliz Ano Velho", leitura que chegou até mim num dos momentos mais delicados de minha vida, por meio da mão de outra pessoa, e que me deu forças para atravessar as barreiras, muitas vezes intransponíveis, da doença. Uma de minhas alunas, então, levantou a mão e começou a falar.

Lembro-me claramente dos seus olhinhos apertados nos contando a sua luta contra a depressão. Já me esqueci de qual livro ela era (ou talvez meu inconsciente tenha tomado à frente naquela hora), mas jamais me esqueci da coragem daquela menina compartilhando, com uma sala com mais de quarenta pessoas, como era a sua luta. O alívio que se cortar causava, a tentação de findar a própria vida, os dias cinzas. Logo, as lágrimas vieram. E tudo que pude fazer para acolhê-la foi caminhar em direção à sua carteira e lhe estender a mão. Ela me segurou forte, mas também agradecida.

Lá do fundo, outro aluno se manifestou. Disse conhecer exatamente o mesmo enfrentamento. Inclusive, compartilhou conosco que as tatuagens feitas ao longo da vida ocuparam a função de lhe proporcionar o alívio que a dor de se cortar causava. E num misto de extrema admiração pela coragem desses meus alunos e de coração agradecido, a conexão que criamos ali foi minha força propulsora que me levou até o fim do ano, para vê-los, mais tarde, tomando seus devidos lugares nas universidades deste país.

Fiquei pensando em como aquele momento foi fundamental para despertar o que havia de melhor em mim.   

No começo do ano seguinte, naquela passagem fatídica da primeira para a segunda fase dos vestibulares, meus alunos se reclusavam no famoso bitolódromo da nossa universidade. Passavam dias e noites a perder de vista lá. E mais do que um local solitário de estudo, parecia-me que eles queriam estar fisicamente lá, como que se estivessem, desde aquele momento, tomando posse do lugar que seria deles um dia. Entre as idas e vindas dos nossos estudos, sempre chegava algo para me chamar a atenção. Uma foto no grupo com a frase "Wagner não dá nota 10" escrita na lousa do fundo. Um apelido de coach quando cometi o deslize de usar a palavra mindset num plantão. Mas, nada disso se sobrepôs à demonstração que recebi pessoalmente.

"Se eu passar no vestibular neste ano, prometo que te dou um abraço". Ganhei essa frase despretensiosamente, no final de uma conversa no banheiro enquanto lavava as mãos. Nem me lembro do que respondi (ou, talvez, mais uma vez o inconsciente agiu), mas me lembro da justificativa que veio em seguida. "E olha que nem meus pais ganham um abraço meu há muito tempo". Ali, entendi quão valiosa era aquela promessa e tomei dimensão da importância de que o meu trabalho desse certo. Assim como deu.  

Fiquei pensando em como a promessa de um abraço pode mudar tudo.

Contudo, nem sempre todos alcançam o seu sonho de aprovação. É gostoso, sim, reencontrar algumas carinhas conhecidas ano a ano, mas mais gostoso ainda é quando essas carinhas viram lembrança e vão se tornar presença lá no ensino superior. Dessa vez, o que me tocou veio justamente de um lugar onde não teve aprovação. Mas, lá encontrei algo tão valioso quanto. "Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho. Mas eu vim de lá, pequenininho. Alguém me avisou pra pisar neste chão devagarinho... Obrigada, Wagner, porque você me ajudou a pisar devagarinho".

Essa minha aluna canta tão bem. E a minha surpresa não foi só receber uma mensagem que, do nada, torna-se cantada, mas também por entender que a gratidão não reside apenas na aprovação, ela também está presente na trajetória. Algo acontece ao longo do percurso, andando devagarinho até o dia do juízo final que impera sobre os alunos que têm seu futuro colocado em jogo em cinco horas de prova. O ser humano abre a sua mente, enxerga além, transforma-se. Como ouvi de outra aluna em outra ocasião, "professor Wagner, hoje estou triste porque descobri na aula de ontem que o meu trabalho é um tipo de subemprego".

Fiquei pensando em como é importante ensinar a andar devagarinho.

A presença da gratidão no percurso, que é tão importante quanto o final dele. A presença da gratidão no final, que na verdade é só o começo para os meus alunos. Tudo isso marca, porém a maior marca é aquela que fica para sempre. "Já assistiu um filme chamado Sociedade dos Poetas Mortos?". Assim como uma frase cantada inesperada ou a repentina oferta de um abraço, essa pergunta me surgiu de repente no meio de uma conversa. E eu havia cometido o pecado de não ter visto o filme ainda, mas disse adorar o protagonista. "Quando eu assisti esse filme, lembrei de você e pensei: o Wagner passa uma mensagem parecida sobre o conhecimento".

Um tempo depois, já envolto pelo hábito trazido pela pandemia de assistir a diferentes filmes às sextas-feiras à noite, finalmente vi o que era o tal grupo de alunos que se denominavam como poetas mortos. Ali, eu entendi a grandeza da alusão feita pelo meu aluno. E, hoje, sempre que abro o ano letivo de minhas aulas, coloco a imagem dos alunos atrevidos em pé nas suas carteiras e convido, aqueles que quiserem, a contarem comigo para subirem nas suas próprias mesas.

Fiquei pensando em como é necessário subir nas nossas carteiras. Fiquei pensando, refletindo, sentindo. Fiquei. E então me tornei.


13 de fevereiro de 2021

O choro de Lucineia

 


Mulher Chorando (1947) - Candido Portinari


Lucineia estava encostada na porta da sala da simples casa onde passei minha infância. Muitas vezes chamada de "barracão", a casa tinha um formato horizontal, teto baixo, um grande quintal de terra e água de poço artesiano. Ficava de frente para um verde e extenso pasto, que integrava uma paisagem sempre tomada por um céu azul claro límpido e montanhas com coqueiros. Era para essa vista que Lucineia olhava, silenciosa, de costas para o interior da casa.

Naquela ocasião, eu com meus apenas sete anos de idade, fui tomado pela curiosidade ao vê-la assim. Junto com meus dois primos, também crianças, fui me achegando sorrateiro perto dela, como se fosse espiar algo muito sigiloso. Contornei as grandes e bonitas pernas que ela tinha, que o shorts curto que ela usava sempre deixava à mostra, e me lembro claramente do meu olhar indo de baixo a cima, fazendo-me enxergar seus olhos marejados e as suas mãos repousadas na barriga, como se acalentasse o filho que ela estava esperando. 

Por que ela está chorando? Foi o que a minha curiosidade de criança me trouxe à mente. A mesma curiosidade que desde sempre me fez criar histórias, mundos e inúmeros personagens também me dera sensibilidade para entender que havia algo ali, naquele choro. Algo a mais, que, obviamente, eu não fora capaz de entender à época, mas que hoje me retorna à mente com um significado muito profundo daquele choro. Talvez, retorne-me mais ao coração do que à mente, na verdade.

Lucineia era a moça que ajudava minha tia, irmã de minha mãe, nos afazeres da casa. Ou a "empregada doméstica", para deixar de lado o eufemismo. Nos anos 90, minha tia ainda tinha um padrão de vida que lhe permitia esse tipo de ajuda e, por estar com a casa em reforma, estava passando um tempo na minha casa. Junto com ela, então, foi Lucineia. Jovem e pobre, carregando um filho, solteira, no Brasil dos anos 90. Talvez, nem ela mesma entendesse o desafio que teria pela frente enquanto admirava a paisagem da zona rural onde eu e minha família morávamos, mas certamente ela o sentia, e as suas lágrimas falavam por ela.

Interessante frisar que para eu chegar ao entendimento suficiente que me permitisse olhar dessa forma para essa cena (e esse cenário) que descrevi até aqui, foram necessários mais de vinte anos. E, muito certamente, eu apenas tenha ressignificado o olhar curioso de uma criança de mente fértil, pois jamais serei capaz de alcançar o sentimento que as lágrimas de Lucineia carregavam. Como um homem, branco, pertencente (hoje) a uma condição de vida favorável, eu posso imaginar esse sentimento, mas jamais terei a dádiva (ou a dor) de senti-lo.

Assim como jamais terei a dádiva de ser capaz de sentir o que todas as mulheres que integram a minha vida já sentiram, um dia, ao longo de sua trajetória. Atrás de mim, na minha história, gravadas no percurso da minha existência, estão mulheres da minha família que foram as responsáveis por me ajudar a alcançar a vida que tenho hoje. Outras pessoas também, é claro, inclusive homens, mas nenhuma delas tão significativas quanto essas mulheres.

Essa conclusão levou muito tempo para ser elaborada. Não se trata de um desses clichês prontos tão disponíveis por aí atualmente, mas sim de uma conclusão de vida. E mais do que uma conclusão racional, trata-se de algo que eu sinto (sentir, no mais profundo poder que esse verbo carrega consigo). Aos sete anos de idade, eu não era capaz de entender as lágrimas de Lucineia, mas por algum motivo elas me voltam à mente (ou ao coração) depois de eu ter trilhado uma extensa caminhada.

Essas lágrimas, silenciosas, doloridas e amedrontadas já estiveram no rosto de minha mãe um dia, que, grávida aos quatorze anos, também não podia imaginar o que enfrentaria em sua trajetória. Também estiveram no rosto de minha avó paterna, que sobreviveu para criar três filhos e sustentar toda uma família, inclusive dando luz ao meu pai em uma garagem. Estiveram, ainda, no rosto de minha avó materna, que hoje continua carregando em seu corpo e em sua alma o peso de uma vida marcada pela desordem e pela falta de amor.

E, apesar das lágrimas, essas mulheres foram capazes de enxugar o seu rosto e seguir adiante. Da forma como foi possível e com as limitações que tinham, mas seguiram. Diante da possibilidade de escolher o abandono, elas optaram pelo acolhimento. Diante da possível desistência, bancaram o enfrentamento. E quando estiveram cara a cara com a morte, quando poderiam, sim, prezar pela sua vida e pelo seu próprio corpo em vez de trazer mais um ser humano ao mundo, elas decidiram se arriscar. Colocaram seu sangue, suas forças e até o seu mais profundo suspiro para que outros seres humanos pudessem viver, pudessem construir suas vidas e, vejam só, pudessem até se voltar contra elas, em algum momento da vida. 

Ora, para conseguir olhar para essas mulheres e enxergar isso tudo, foi necessário que eu me despisse, ao longo do meu caminhar, de toda mágoa, ressentimento e até ódio que a vida, infelizmente, leva-nos a carregar. Não importam os motivos, não há culpados, pois o mal simplesmente acontece e faz parte da vida. E quando fui capaz de deixar o amor invadir meu coração e diluir todo o natural ressentimento trazido pela vida, pude olhar verdadeiramente para essas mulheres. Eu pude, então, me lembrar do choro de Lucineia.


Imagem disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/woman-crying/wgGMDt2ERUzg3g?hl=pt-br. Acesso em 13 fev. 2021.





29 de outubro de 2017

Somos treinados

Do fotojornalista Nick Ut / AP. Em 8 de junho de 1972, Kim Phuc, vietnamita de 9 anos, chora após ter parte do corpo queimado em um bombardeio aéreo de napalm, em um vilarejo no Vietnã. (O Globo)


“Antes, quando ele morreu, eu ia todo dia, de manhã e à tarde. Na mesma semana em que ele morreu, mandei fazer um monte de foto dele e espalhei pela casa inteira. Até que um dia surtei. Eu ficava segurando, segurando... Até que quebrei tudo que tinha dentro da cozinha, mandava tudo pro quintal.

‘Calma, calma! ’, ‘calma por quê? Por que eu tenho que ficar calma? Perder filho é fácil?’. Eu chorava, tremia, tremia... Falei pra moça (no cemitério), ‘se eu não voltar até quinze para as cinco, você me chama’. ‘O que aconteceu? ’, ela me perguntou, e eu respondi ‘a senhora já sabe’. Ela disse ‘ta bom, filha. Vai, desabafa seu peito, seu coração, porque você merece isso’.

Ali eu deitei na terra, porque agora que estou fazendo o túmulo, e raspava, raspava a unha naquela terra! Não me conformava que embaixo daquela terra estava o meu filho. Ali, foi a hora que eu dei uma explosão, dos três anos que eu segurei. E orava ‘Senhor, foi da sua vontade, mas trabalha no meu coração, não vira teu rosto para mim não, Senhor’”.

Este relato me foi contado por uma forte mulher chamada Alessandra e fez parte do livro-reportagem "Vida Além do Câncer". Projeto de conclusão do curso de jornalismo meu e de mais duas amigas, as jornalistas que muito admiro Talita e Camila, este livro contou histórias de pacientes do Centro Infantil Boldrini em três perspectivas: um que sobreviveu ao câncer, um que estava passando pelo tratamento, e um que morreu com a doença. 

E como é possível perceber pelas palavras de Alessandra que aqui reproduzi, o caso do seu filho Sansão, que integrou o nosso livro, ilustrava a situação de um paciente que não havia sobrevivido ao câncer. O fato é que o forte trecho da história aqui reproduzido, apesar de ter aberto o capítulo do livro que contava a experiência de Sansão, não nos foi contado no começo da conversa com Alessandra, mas sim ao final dela. 

Entretanto, após entrevistar a nossa fonte, Alessandra, digerir tudo que ouvimos, decupar o áudio de sua entrevista (processo em que o jornalista transcreve a gravação de sua entrevista para o papel) e reler tudo aquilo, entendi que este trecho não poderia ficar para o final, ele tinha de abrir o capítulo. Dessa forma, teríamos um clímax logo no começo da história, que, além de prender o leitor logo de cara, já deixaria claro para ele que a história a ser lida tratava do caso da criança falecida. Ou seja, seria perfeito!

Pois bem, eu tinha às minhas mãos a triste, delicada e respeitosa história de uma criança que não resistira ao câncer, confidenciada por meio da dor de sua mãe, que recebera três estranhos em sua casa da forma mais afetuosa possível para falar da maior perda de toda sua vida, e ainda assim eu tinha de olhar para aquilo como material de trabalho.

Sem o natural envolvimento humano e emocional à frente, precisei tratar todo aquele conteúdo apenas como texto e colocá-lo em uma estrutura narrativa que cumprisse sua função como o capítulo de um livro. E a "cena" de Alessandra arranhando a terra do chão onde seu filho estava enterrado, momento em que sua dor finalmente explodira, tinha de abrir o capítulo.

E o final? Bem, para encerrar o capítulo reservei a conversa final entre Alessandra e Sansão no leito do hospital, quando, sem nem poder mais falar, Sansão entrava em um acordo com sua mãe que era o momento de partir. Apenas grunhindo, ele travou um diálogo final com Alessandra antes de morrer, cena esta que evitarei também reproduzir aqui porque me faria, hoje, chorar por um bom tempo. Mas, a fala "ele descansou, mãe", que Alessandra ouvira do médico, foi o texto que fechou o capítulo, embora não tenha sido a última coisa que Alessandra nos contou. 

Esta experiência é apenas uma das muitas que já tive na qual fica claro como o exercício da profissão de jornalista precisa ser extremamente técnico. Por mais que se coloque alma e verdade no trabalho jornalístico, é a técnica empregada a responsável por permitir a entrega de um produto final perfeito. Por mais difícil, envolvente ou dura que seja a situação ou história a ser contada, há de se ter o distanciamento necessário para tratar aquilo como material do nosso trabalho. Não se trata de inspiração ou potência dramática da história, mas sim de técnica.

Em outra ocasião vivida por mim em que isso também ficou evidente, precisei escrever toda a história de uma companhia de teatro para produzir o conteúdo de seu novo site e, posteriormente, efetuar uma ação de assessoria de imprensa. Todo o processo jornalístico para isso foi feito a distância, pois o cliente era de outra cidade. Cliente este, aliás, que talvez tenha sido o mais peculiar que já tive dentre os muitos já atendidos: um palhaço. 

Lembro-me até hoje das palavras dele quando respondi que não poderia ir até sua cidade para participar do evento sobre o qual trabalhei na ação de assessoria: "Finalizamos a troca? Era isso aí? Não ter havido contato - além das letras - mais aprofundado era a ideia original e final? Escreveste sobre minha vida e trabalho conseguindo não se envolver, cara. Te admiro, pois me aponta algo de que não sei fazer". 

Ora, preciso confidenciar, aqui, o quanto me toca o coração ler algo com tamanha verdade e expressão. Mas, eu tinha outros compromissos profissionais na época, a cidade do cliente era distante e o custo da viagem não compensaria o valor, não tão expressivo, que haviam me pagado pelo trabalho. O meu papel como jornalista estava cumprido, a viagem e o contato, do qual o palhaço sentira falta, não aconteceriam. 

Tal cenário da profissão de jornalista me remete a uma fala de Ana Paula Padrão em uma entrevista acerca do programa apresentado por ela atualmente, o Master Chef. Ao ser questionada sobre como encarava as situações do reality show, Ana Paula falou sobre como era necessário ter um distanciamento do envolvimento emocional com os candidatos para ser capaz de cumprir seu papel de conduzir a narrativa do programa.

E uma fala dela me marcou em especial: "nós, jornalistas, somos treinados para não nos envolver". Mesmo admirando tanto o trabalho dela e toda bagagem jornalística que ela traz consigo, incluindo sua vereda atual pelo entretenimento, não esperava me identificar tanto com uma verdade dita por uma jornalista como ela (repórter, do meio TV, apresentadora de bancada e agora no entretenimento), tão distante do tipo de atuação que tenho nos meus dez anos de carreira. "Somos treinados". 

De fato, nós, jornalistas, somos treinados a não nos envolver. Por outro lado, o exercício de nossa profissão, como qualquer outro, deixa marcas. É impossível não absorver algo para si de todas as histórias contadas pelos diferentes tipos de personagens e fontes que atravessam nosso caminho. Nós, jornalistas, carregamos em nossa alma um pouco de cada história contada pelos seres humanos que entrevistamos. 

Da mesma forma, caro leitor, tudo que teci até aqui pode parecer se resumir apenas à profissão de jornalista, mas, na verdade, tem a ver com a vida em seu amplo aspecto. Afinal, o jornalismo é a vida em todas as suas nuances, e este distanciamento, tão presente em nossa técnica, tem a ver com a vida de todos nós.

Pois veja, não é verdade que você, em seu cotidiano, também não atravessa a vida de várias pessoas? Elas também não te contam suas histórias? Muitas vezes nem por palavras, mas por gestos, olhares ou atitudes, as pessoas ao seu redor, integrantes do seu dia a dia, também carregam uma história consigo, porém nem sempre são ouvidas. 

Isso se faz verdade na pessoa apreensiva que se senta ao seu lado no ônibus, mas com quem nem há um "bom dia"; com o estranho que olha sorrindo para você na fila do banco, mas de quem você nem saberá o nome; no chefe que te recebe em sua mesa ao final do expediente para tratar de um assunto com uma expressão de tristeza, com quem você fala, mas sequer pergunta se está tudo bem; do ser humano com quem você se dispõe a transar ao final da balada ou de uma caça no aplicativo, mas cuja história de vida você nem sonhará em descobrir após o gozo.

Simplesmente porque somos treinados. Todos nós. Desde pequenos quando ouvimos de nossa mãe para não falarmos com estranhos, até quando já adultos seguimos à risca a etiqueta de não prolongar a resposta ao "tudo bem?" do rápido cumprimento cotidiano. Todos sabemos que não devemos falar, tampouco perguntar, pois a vida precisa seguir sem os percalços da inveja e curiosidade alheia, porque não se há tempo ou porque a intimidade pode ser uma inimiga. 

Os motivos são vários, as oportunidades também, mas somos treinados. A vida nos treina assim, as pessoas também. O jornalista, então, apenas tem isso como ossos do ofício. 

Contudo, você também há de carregar contigo as histórias que te marcaram, que tocaram sua alma e coração. E para cada uma delas, meu convite, como jornalista e ser humano, é que você abra mais seus olhos e ouvidos, para ser capaz de, assim, treinar-se a percebê-las. 


23 de julho de 2017

Por quem você se dobra?



"Eu era muito cobrado por não dizer 'eu te amo' para ele. Mas, é que falar isso tinha um peso tão importante para mim que eu sempre escolhia momentos especiais para dizê-lo. Então, agora, eu procuro dizer mais 'eu te amo' para meu novo namorado, sempre busco momentos para isso".

Os claros olhos da pessoa querida que me contava essa história se mostraram sensíveis naquele momento. Com uma xícara de café à mão, no fim do expediente daquele dia, pude sentir, muito profundamente pelo verde de seus olhos e no carinho de sua fala, uma notável preocupação em fazer diferente, desta vez, com um novo relacionamento, baseando-se na experiência que ela havia tido com o ex-marido.

Do outro lado, enquanto ouvia aquela história como quem recebia um presente precioso numa tarde de sexta-feira, estava eu, também com uma xícara de café à mão, perguntando-me em pensamento o quanto, de fato, aquela pessoa queria mesmo dizer tantos "eu te amo" ao novo namorado. Afinal, o ímpeto de expressar mais o seu amor fora despertado pelo atual relacionamento ou pela experiência com o anterior?

Pois é, nem todas as nossas atitudes, por vezes, nascem de nós mesmos. Várias delas são despertadas por motivações externas a nós. Uma pessoa, um trauma, um aprendizado, uma nova situação. São muitas as origens de algumas de nossas atitudes, e nem sempre estamos prontos a reconhecer isso. Se eu tivesse exposto, por exemplo, a minha pergunta em pensamento, a querida pessoa que me confidenciava a nova frequência do seu "eu te amo" certamente discordaria. Ora, será fácil admitir que nem tudo que vem de nós nasce em nós?

Caminhando por esta reflexão enquanto lavava a xícara do café após o fim daquela conversa (a empregada odiaria chegar na segunda-feira de manhã e ver duas xícaras largadas por nós ali na pia), lembrei-me de outra situação que me trouxe a mesma questão. Quando estávamos eu e uma amiga no trabalho comemorando uma aprovação com "nota 10" de um cliente.

Ao lermos o feedback dele, abraçamo-nos e, escandalosos que somos, comemoramos de forma contida, no exato momento em que nosso chefe passava pelo corredor e, vendo aquela cena, franziu a testa, levou o dedo à boca e fez um "shhh!". "Gente, a dona da agência está aí". Por mais desapropriada que fosse aquela repreensão a dois subordinados no contexto e no ambiente de uma agência de comunicação, não foi exatamente isso que me chamou a atenção. Mas, sim, ver meu chefe fazendo aquilo. 

A atitude automática dele diante da comemoração pela aprovação de uma campanha enviada por um cliente, o categórico "shhh!" que lembrou um diretor sisudo de escola do ensino fundamental, a roupa social formal que ele vestia. Tudo ali não parecia ser dele. Lembro-me de quando eu o conheci há dois anos atrás, em sua chegada à agência, e jamais imaginaria vê-lo naquela roupagem algum dia. Porém, exigência após exigência dos "donos" da agência, naquilo ele se resultou. 

Deixando os detalhes do campo profissional ou pessoal de lado, a verdade é que a vida nos transforma ao longo do tempo. E mais, ela exige que nos transformemos. Conviver com um amigo completamente diferente de você (e a diferença é uma dádiva!) é um desafio para o qual a mudança é necessária. Manter um casamento de anos demanda adaptações, concessões e, também, mudanças. A cada emprego e cargo que ocupamos nos pedem mais novas atitudes, e lá vamos nós nos transformarmos mais uma vez.

Esta maleabilidade que nos permite encaixar pelas diferentes constâncias da vida é essencial. E também positiva, afinal, aprendemos tanto com ela, abrimos nossas barreiras. Quando pensamos que já fomos tudo que tínhamos para ser, abrimos uma nova caixa e, de repente, lá está um novo "eu". No entanto, até que ponto tal maleabilidade pode nos transformar? Será que devemos nos permitir ser dobrados ao máximo possível?

Tal realidade não está apenas nos grandes atos, nos movimentos apenas expressivos. Mas, também nas pequenas atitudes. Outro dia, eu mesmo, ao me levantar da cadeira de minha escrivaninha em casa em plena madrugada para ir dormir, peguei-me colocando a cadeira de volta em seu lugar. Olhei de longe, então, e vi a cadeira encostada na escrivaninha, um detalhe que não veio de mim, mas que aprendi ao receber as engraçadas repreensões de uma colega de trabalho toda vez que me levantava para ir embora. "Vai deixar o rabo para trás de novo?".

Do mesmo modo, estes dias notei que minha cama permanece encostada na parede já faz uns meses, algo que nunca mais mudei após receber uma pessoa em casa que, ao se deitar nela, disse-me que seria muito melhor que a cama estivesse perto da parede, e não no meio do quarto. Foi impressionante como aquela mudança de alguns centímetros para a esquerda deixou o deitar muito mais aconchegante, um aconchego que permanece comigo até agora.

Uma cama, uma cadeira, um "eu te amo". Não importa de que tamanho e qual a relevância do que está em nós, mas não vem de nós, pois a verdade é que nos tornamos a soma de tudo aquilo e de todos aqueles que passam por nós. Muita coisa fica, bastante coisa vai embora, porém quem permite o ficar ou o partir somos nós, é a pessoa que recebe tantos e constantes pedidos de adaptações, de maleabilidade.

Contudo, há de se ter respeito pela sua essência. Esta, sim, não deve ser mudada. A questão "quem sou eu, na verdade?" nunca deve sair de foco. Tudo bem pedirem que eu me adapte, mas não me peçam para ser alguém que eu não sou.

Afinal, diria que este é o lado negro das constantes necessidades de mudança que a vida nos traz: destruir de forma impiedosa a nossa essência central, em prol dos meros interesses de tudo que é externo - um relacionamento, um emprego, uma amizade - coisas estas que, notem, sempre vão embora, cedo ou tarde. E aí, o que ficará e restará de nós? Pois, depois que elas se vão, a única coisa que não se vai é a nossa essência. E será que ela, sim, foi respeitada como deveria?  

Mudar ou não mudar, respeitar-se ou não, ceder ou insistir... Decisão delicada, quase que como duas faces de uma mesma carta. Algo que sempre estará em nossas próprias mãos. E a escolha, no fim das contas, sempre consistirá em saber por quem, ou o que, vale a pena se dobrar. E você, por quem você se dobra?


4 de junho de 2017

Desejo

"... nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto (...) pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço."


Romanos 7: 15; 18-19.


Certa vez, li uma história que contava como os esquimós, sagazmente, faziam para caçar os lobos que rodeavam seu lares. Cientes do quanto esses animais eram carnívoros, os esquimós banhavam seus facões em sangue e os punham para congelar. Quando, então, as armas se transformavam em verdadeiras pedras de sangue congeladas, eram expostas na natureza como armadilhas.

Os lobos, ao se depararem com essas armas congeladas, sentiam o cheiro do sangue que ali estava e, famintos, colocavam-se a lamber avidamente o gelo que, ao derreter, inundava o paladar dos ferozes animais com o doce sabor do sangue. Acontece que o deleite dos lobos era tamanho a ponto de o gelo se derreter por completo e eles não perceberem que já estavam a lamber o próprio facão. O fio da navalha, então, começava a cortar a língua dos lobos e, agora, o sangue que os animais engoliam não era mais o congelado, mas sim o seu próprio sangue vindo de sua língua.

Mesmo se ferindo, o prazer dos lobos pelo sabor do sangue era tão grande, tão prazeroso, que eles não conseguiam parar. Machucavam-se, mas continuavam lambendo o facão compulsivamente, pois seguiam obtendo o prazer que vieram buscar. E assim o faziam até a morte.  

Não é assim que tens se sentido ultimamente, como um lobo sedento por sangue? Aprisionastes teus desejos por tanto tempo, refugiando-te para longe daquilo que gostas em um exílio criado por ti mesmo, e agora, que te vês livre, estás à solta por aí, caminhando como um lobo que procura sua presa.

Olhas para um lado e te encontras com tua gula, experimentas um, dois, três, até quatro sabores diferentes; comes e bebes ontem, hoje e amanhã. E depois? Repetes tudo outra vez, mesmo estando satisfeito; afinal, o teu desejo não está na saciedade, mas, sim, em poderes fazê-lo, no estares ao teu alcance.

Olhas para outro lado e te encontras com tua compulsão. Sem as barreiras físicas que te limitavam, aproveitas teu prazer dentro e fora de teu espaço e o divides com um, dois ou mais. Hoje, fazes isso de um jeito, amanhã de outro, exploras todas as possibilidades e espremes até a última gota de desejo, até te esgotar. Fisicamente, então, já te encontras exausto, mas o desejo, ah, esse continua ardente!

Tão ardente que nem mesmo a compulsão, e tampouco a gula, conseguem apagá-lo. O desejo sobrevive, resiste, vai além e se desdobra, transborda, cresce e inunda-te. Já estás, sim, a te deleitar com teu próprio sangue, mas não consegues parar. Já é, sim, o teu próprio sangue que escorre no fio da navalha, contudo não és forte o suficiente para frear o desejo.

Por outro lado, esse mesmo desejo que te machucas é o desejo que te moves, é o desejo que te trouxeste até aqui, e é por meio dele que fazes o que não queres, mas que também realizas o que sonhaste. Fazes bem ou fazes mal, porém fazes, vives, andas, avanças! 

E o próprio sangue que engoliste serve para te alimentar, gera aprendizado, sabedoria, capacidade para reconheceres a próxima armadilha camuflada (a qual só voltarás a desejar se o quiseres, pois estarás ciente de que se trata de uma armadilha. Entretanto, quão prazeroso não é desejar uma armadilha, sabes?).

E o corte de tua língua, a ferida de teu corpo, transforma-se em cicatriz, vira lembrança, une-se ao teu aprendizado, tu sobrevives. Mais uma vez, sobrevives. E assim és porque, ao contrário do lobo, és consciente do que fazes. Na verdade, não és enganado, e sim engana-te a ti mesmo, de propósito, por puro prazer, por puro desejo.   

E assim avanças. Bem como o teu desejo. Ambos vitoriosos. Mas, até quando? Até quando desejares? Até quando teu desejo quiser? Ou até quando sobreviveres, entre sangue e facão, enquanto és o teu desejo ou o teu desejo já se tornou a ti mesmo? 

5 de março de 2017

Reencontro

Lá estava eu, atrasado, seguindo pela Santos Dumont em direção à terapia. Aquela rodovia é um inferno às sete da manhã! Bem ou mal, as intermináveis filas de carros completamente paradas me deram tempo para refletir, enquanto tentava vencer o desafio de não me atrasar muito.

Afinal, dois anos tinham se passado desde a última vez em que havia visto minha psicóloga. Dois anos... Tanta coisa acontece neste tempo. O que, de fato, deveria ser comentado? A mudança de casa, os relacionamentos criados, as relações perdidas, os sonhos realizados e os novos que se faziam... Menos quinze minutos para se chegar ao destino, fico ainda mais colérico com a situação daquela rodovia.

Talvez, eu devesse falar dos planos para o ano que se iniciará. Ou, quem sabe, comentar aquela difícil situação vivida. Ah, mas tem outro fato importante a ser destacado de um ano e meio atrás... E mais vinte minutos se vão até que eu, finalmente, consigo chegar àquela sessão e reencontrar minha terapeuta, que eu não via há exatos dois anos.

"Você está igualzinho, não mudou nada". De certo modo, fiquei contente com o comentário. Pois, se começamos a envelhecer, de verdade, depois dos 25 anos, devo estar caminhando amigavelmente com a minha idade. Ao contrário da minha relação com os meus atrasos, que me dera, nesta situação, apenas 40 minutos de sessão. Seria possível, em 40 minutos, contar o ocorrido em dois anos? 

Não sei. Mas, naquele momento era como se, à minha frente, não estivesse mais minha psicóloga; era como se eu estivesse olhando para os dois últimos intensos anos vividos e precisasse reencontrá-los, ali, para um bate-papo de quarenta minutos. Foi, então, que a preocupação com o que contar foi embora, e tudo que senti neste encontro foi vontade. 

Vontade de rever esses dois queridos. Da mesma forma como quando revejo amigos, após um bom tempo sem nos encontrarmos, estava ali diante de dois anos vividos, feliz por vê-los novamente. É ali que aconteceu o mesmo processo de se matar as saudades com os amigos.

Olha só, como você mudou, está mais bonito. Veja, está mais forte também. Não me diga que você fez isso? Que máximo! Pois é, que coisa boa. Hum, esta decisão foi importante, hein? Que ótima esta novidade! Conte-me mais sobre ela... Ah, que saudades eu estava de vocês!

Assim, foi um encontro saudoso. Não precisei de mais do que quarenta minutos para olhar para esses dois velhos conhecidos e ver como eles foram bons! Se houve momentos ruins? Claro que sim, alguns bem sérios, inclusive. Porém, assim como perdoamos e nos esquecemos das ranhuras de uma boa amizade, deixei de lado as situações ruins e só fui capaz de me lembrar de coisas boas.

Afinal, estava ali olhando para dois queridos tão importantes. Como poderia me prender aos fatos pesados, se as lembranças boas eram tão vívidas? Que bom que eu os reencontrei! Que bom que enfrentei a correria crônica do cotidiano, escancarada na Santos Dumont, para abrir uma brecha na agenda a este reencontro. Que bom que eu parei e olhei para vocês.

Logo, os quarenta minutos se foram. Rápidos, bons e suficientes. Como tinham de ser. E minha psicóloga, que ali me observava revendo estes entes queridos, então fechou aquela sessão quase como a iniciou: "você está diferente, sabe?". 

Sim, eu estou (cada vez mais) diferente.


25 de julho de 2016

Faça com que eu te ame ou me perca de vista



Eu mal podia acreditar no que estava lendo. Uma amiga minha, tão querida quanto uma irmã, contava-me como aconteceu seu término de namoro. A relação, que já durava alguns anos e a qual eu sempre admirei, tamanho o nível de intimidade existente entre o casal, simplesmente acabou porque, segundo minha amiga, sua namorada se sentia presa em uma gaiola e achava que vivia mais uma amizade do que um namoro. Isso tudo marcado pelo distanciamento causado por uma cirurgia feita pela minha amiga.

"Dois meses sem sexo, onde já se viu?"; "mas, gente, eu estou operada!". Parece que a cirurgia de minha amiga foi colocada como estopim de algo que já vinha se arrastando há um tempo; e a ida de sua ex-namorada para uma balada (sozinha e em outra cidade) foi o gancho para a conversa que gerou o término. O curioso é que tudo isso poderia ter sido me contado pela minha amiga pessoalmente. Mas, não, fizemos-o pelo Whats App. Da mesma forma, esse término entre ela e a parceira foi feito todo a distância, usando Whats App e, às vezes, telefone. "Acho que perdi a fé na humanidade depois disso", foi a última coisa que li dela.

Diante do relato, confesso que fiquei chocado. Uma relação de anos, marcada por uma forte amizade que se transformou em namoro, repleta de identificação e construída com base em momentos importantes, não foi o suficiente para resistir a um desfalecimento, assim, tão repentino, de forma tão leviana, sem sequer uma conversa olhando nos olhos. Ora, o que é preciso para poder confiar que uma relação irá se sustentar, hoje em dia? 

Na mesma semana, depois disso, encontrei-me com um amigo para um café e ouvi um relato que me levou à mesma reflexão. Enquanto nos serviam cafés expressos e um delicioso pedaço de bolo, perguntei a ele como havia sido o encontro com um rapaz, na semana passada, para o qual ele estava muito animado. Ouvi dizer que o moço, apesar de ter apenas 23 anos, era uma pessoa madura e responsável. Confeiteiro profissional, já com seu próprio carro e de espírito empreendedor, tinha conversas interessantes pelo Whats App. Mas, ele me contou, desanimado, que o rapaz simplesmente sumiu após o encontro.

"Ele não se interessou por uma palavra do que eu dizia, sabe? Ouvi tudo sobre ele, com interesse, fiz perguntas, mas não vi nenhum interesse em me ouvir. Sei lá se ele não gostou da minha aparência quando me viu". Perguntei ao meu amigo se ele tinha compartilhado com o rapaz a sensação de que não havia sentido interesse da parte dele, se tinha sugerido tentar um segundo encontro ou uma nova conversa, se tinha falado sobre o que sentia. "E como fazer isso? Depois que ficamos, ele foi embora e desapareceu do Whats App no dia seguinte. Foi ficando quieto até não me responder mais".

Ao terminar de ouvir meu amigo, fiquei com a mesma sensação de leviandade que tive quando terminei de ler as mensagens de minha amiga. Uma relação de anos e uma relação que durou apenas uma noite, ambas terminadas com um simples corte, feito a distância, sem mais delongas para explicações ou reflexões. Será que a tecnologia nos possibilitou facilitar os rompimentos ou nós que a usamos como um canal para colocar em prática a superficialidade que se tornaram as nossas relações? 



Acredito que essa tecnologia toda, tão ágil e sagaz, só acentuou algo que está cada vez mais nítido ao nosso redor e em nós mesmos: a ânsia pelo imediatismo. Atualmente, é um verdadeiro desafio conseguir criar, desenvolver e manter um relacionamento. É tudo tão rápido e passageiro, que descartar uma relação, por mais importante que ela pareça ser, tornou-se fácil.

Ora, o "crush" não te agrada mais? É só passar a ignorá-lo no Whats App e buscar um novo match nos apps de pegação. Para terminar um namoro, basta trocar mensagens pelo celular. O primeiro encontro foi ruim? Comece a ficar distante e a não responder com tanta frequência, logo a pessoa some. Fácil, simples, supérfluo! A comunicação está mais ágil. As relações (sexuais ou amorosas) mais facilitadas. Para que perder tempo com explicações? 

E, diante disso, um diálogo aprofundado, onde é possível dizer o que se sente e compartilhar pensamentos, torna-se chateação. O que importa é o momento! Enquanto está bom, enquanto se está feliz e animado, mesmo momentaneamente, isso servirá. Porém, a partir do ponto em que há uma queda nessa empolgação, a coisa passa a ser questionável de ser mantida. Afinal, se não é mais legal, para que manter isso? 

E nessa perspectiva de "faça-me rir e me faça bem, faça-me feliz", vamos nos esquecendo de que para estar bem com alguém, para estar feliz com qualquer pessoa (seja namorado, amigo ou familiar), precisamos antes estarmos bem com nós mesmos. Não adianta continuarmos a procurar nos outros ao nosso redor, em nossos empregos ou em nossos estudos algo que nos mantenha "feliz" o tempo todo, como se não houvesse momentos de baixa na vida.

Pois, a beleza de saber manter qualquer coisa no dia a dia é justamente essa, entender que haverá momentos bons e ruins e que é preciso tempo para sentir, de fato, o que se está vivendo.

Contudo, enquanto esperarmos imaturamente que tudo seja lindo o tempo todo, que sejamos conquistados em cinco minutos ou que não haja decepções, continuaremos a não dar tempo para as situações da vida se mostrarem realmente interessantes; e, assim, pularemos de emprego em emprego, faremos "n" mochilões pela Europa, trocaremos de amigos, descartaremos pessoas pelo Whats App após a primeira noite e até findaremos a distância com relações de anos.

Por isso, caro amigo, antes de lançar, mais uma vez, o desafio do "faça com que eu te ame ou me perca de vista" para algo ou alguém, lance para si mesmo o desafio de ser capaz de descobrir a beleza existente no que está à sua frente, antes que seja tarde demais e o seu amontoado de momentos se dissolva novamente.


27 de maio de 2016

A força que vem das cicatrizes



Era uma tarde fresca em Campinas, eu respirava a brisa que agitava as folhas das muitas árvores ao nosso redor. Adoro as ruas de Barão Geraldo. Eu estava encostado no carro, junto com meu pai e meu primo, ao lado do Centro Infantil Boldrini. Enquanto admirava todo aquele cenário, chamou-me a atenção o caminhar de uma garota, apoiada em suas muletas, pela calçada à minha frente.

Ela andava com dificuldade. Seus braços pareciam não sustentar com tanta firmeza o corpo robusto que precisavam levar adiante se equilibrando em duas muletas nas irregulares calçadas que rodeiam o Boldrini. De repente, ela se desequilibra, sua única perna apoiada no chão vira e a faz encostar num carro estacionado por perto. Suas mãos soltam as muletas e tentam segurar, em vão, na porta do carro. O corpo da menina vai deslizando e, então, cai no chão.

Com o barulho do tombo, a primeira reação de meu primo foi correr para ajudar a garota a se levantar. Mas, uma mulher, que me pareceu ser a mãe dela, estava mais próxima e chegou antes dele para oferecer amparo; ao que, em resposta, recebeu um "me solta, eu me levanto sozinha, deixa!" como resposta da garota caída, que, agora, apoiava nas muletas para se levantar. A reação negativa dela fez meu primo voltar atrás.

Depois dessa cena, fiquei pensando no porquê da menina ter recusado ajuda para se levantar. Afinal, por que se sentir ofendida com uma mão estendida para te levantar do chão? Outro dia, porém, quando eu, então, usava muletas, ao passar pela área de casa numa tarde chuvosa deixei que um escorregão me jogasse de joelhos no chão. Meu pai rapidamente se abaixou para me ajudar, e minha reação foi "pode deixar, eu me levanto sozinho". A mesma resposta irritada. A mesma reação diante de uma ajuda.

A partir do meu tombo, pude perceber o que incomodou a garota que eu vira cair. Entendi o sentimento dela. Quando perdemos o chão, a sustentação de todo nosso corpo, não levamos apenas um tombo, mas perdemos também a nossa própria segurança. Juntamente com o cair, vai embora toda nossa autossuficiência. Ficamos vulneráveis. Daí a necessidade de recusar ajuda, pois a primeira preocupação é não querer demonstrar fraqueza. Contudo, será que somos tão fortes assim? 

Essas e outras situações já me fizeram refletir, por vezes, em como a dor física transforma o ser humano; e o transforma de maneira completa! A dor física parece ter a capacidade de arrancar de nós todas as nossas certezas sobre a vida. Todas as seguranças que construímos dentro de nós, e para nós mesmos, parecem ser atingidas de maneira profunda, fazendo-nos questionar tudo ao nosso redor.

Tal questionamento é o tipo de pensamento que não costumamos nutrir no dia a dia sempre tomado pela nossa certeza de que (aparentemente) temos o controle de tudo ao nosso redor. Trata-se do questionar por que tal dor nos atinge, ter medo de sua causa, aflição do esperar a mesma ir embora. É a terrível sensação de encarar um futuro incerto.

Esse é o sentimento que nos toma quando nos encontramos numa cama de hospital. Ou, ainda, quando simplesmente caímos e nos deparamos com a verdade de que não somos tão autossuficientes quanto pensamos. Entretanto, a vida tem a beleza de nos permitir regenerarmos. A garota que eu vi naquele dia, provavelmente, levantou-se outras vezes e abandonou as muletas. Assim como eu deixei as minhas muletas de lado alguns meses depois daquele tombo e nunca mais precisei delas.

O que fica, depois disso, são as cicatrizes. As marcas que a dor física nos deixa, talvez não como castigo ou herança ruim, mas como lembrança do que já superamos, daquilo que já fomos capazes de vencer. As cicatrizes, nesse sentido, têm a incrível capacidade de nos tornar mais fortes. Mais do que qualquer fortalecimento que possamos buscar, é superar uma debilidade e ganhar uma cicatriz que nos fortalece de verdade.

E, além de nos fortalecer, são também as cicatrizes que nos dão maturidade. Afinal, a primeira coisa que fazemos ao superarmos uma dor física é esquecê-la. Jogamos a sensação de dor para o inconsciente e nunca mais visitamos este local para revivê-la. Porém, ao olharmos para uma cicatriz, lembramos que por ali passou uma dor. Daí vem a maturidade, pois encaramos nossa autossuficiência com mais ceticismo. Pisa-se com mais cuidado, mas também se caminha com mais força.  

Eu não sei se você tem uma lembrança como essa aí contigo. Tampouco sei a quem você se apegou no momento em que suas certezas foram arrancadas; se a Deus, ao universo, à pessoa amada que estava próxima. Mas, uma coisa é certa, seja a sua cicatriz uma marca visível ou não, possa você tocá-la ou não, há uma força que vem dela. E essa força não se perde nunca, ainda que, às vezes, a sua muleta ceda e o cair seja inevitável.


28 de março de 2016

Deixar pessoas é preciso



"Eu me sinto culpada por estar brigada com ela. Porque ela já fez tanto por mim, que parece que estou sendo ingrata, sabe? Mas, eu sei que não estou errada". 

Ouvi essas palavras de uma querida amiga, de longa data, um dia enquanto tomávamos café em sua casa. O aroma do café que ela preparara para gente, a fim de acompanhar a conversa, aquecia não só nosso olfato e paladar, como também os corações enternecidos, naquela ocasião, por conta de uma desavença que havíamos tido com uma amiga em comum, cuja amizade também se estendia por mais de uma década.

A fala dela me chamou bastante a atenção, pelo modo como se sentia culpada por ter uma desavença com alguém que fora tão importante para ela em determinada fase de sua vida. Que a ajudara, extremamente, em um momento de intensa necessidade, pelo qual ela provavelmente não passaria não fosse a ajuda dessa amiga. E, então, era como se a desavença a culpasse, acusasse-a de ser ingrata.

Diante da constatação desse sentimento, argumentei com minha aflita amiga que ela não deveria se sentir culpada, pois desavenças acontecem a todo momento pelas indiferenças que naturalmente temos, mas, sobretudo, pelo fato de que, na vida, não vamos criando saldos positivos ou devedores com as pessoas ao nosso redor conforme nossas atitudes. Que não vamos nos enredando em uma série de dívidas e cobranças de acordo com nossos atos, os quais nos permitem agir de uma forma ou de outra.

Se assim fosse, diante de uma desavença, como era o caso, eu teria de recompensar tudo que a pessoa fizera por mim para, então, poder discordar em algo com ela? Só depois de me sentir ter sido suficientemente útil para essa pessoa, como ela fora para mim, eu poderia demonstrar uma insatisfação? O que haveria de sinceridade nisso?

Curiosamente, minha amiga retomou a amizade com nossa amiga em comum, com quem estávamos em desavença na ocasião, um mês depois desta conversa. Eu, por outro lado, segui da mesma forma, sem retomar a amizade com ela, sem mais convivência, sem nenhum contato. De lá para cá, lembrei-me que neste mês de março se completa 1 ano dessa ausência que, pelo visto, tornou-se permanente. 

E me lembrar desse "aniversário de desamizade" me fez refletir em como é necessário que, ao longo da vida, deixemos pessoas pelo caminho. No caso dessa amiga (a qual ainda considero uma amiga, porém distante), afastamo-nos por questões que, necessariamente, não foram escolhas nossas. Afinal, a vida de ambos foi mudando conforme o tempo passou, as prioridades foram se alternando, a visão de mundo se transformando, as histórias, consequentemente, distanciando-se.  

Conquanto isso acontecesse inevitavelmente, a gente ainda se gostava, porém nos tornamos tão diferentes que nem mesmo a amizade com duração além de uma década foi capaz de sustentar uma convivência que, infelizmente, não fazia mais sentido. A desavença que nos separou, na verdade, foi um mero despontamento disso.

Claro que há vários tipos de distanciamentos e nem sempre o "rompimento" é o necessário ou ideal. Às vezes, apenas a "não convivência" preenche esse vazio deixado pela incompatibilidade de realidades. Mas, a verdade é que é difícil aceitar tal consequência. Pelo menos para mim, há um tempo atrás, era um crime imaginar deixar que uma amizade de décadas se fosse... Imagine, não posso deixar isso acontecer! Tanta história não pode acabar nunca... É a tal ilusão do "amigos para sempre", "ficaremos juntos até o fim", a tal "dívida" que sentimos ter com as pessoas que foram importantes para nós um dia.

Pois, a beleza suprema da vida de aprender algo novo a cada fase me mostrou que não há nada de errado ou lamentoso nisso. Ora, tudo nessa vida precisa (e deve) ter um começo, meio e fim. Tudo, uma hora, acaba. E nós temos que saber aceitar essa verdade. E mais, aceitar e fazer dela algo belo. Afinal, se sabemos que vai terminar, se temos consciência de que, naturalmente, algo irá se findar, então vamos fazer o máximo para que essa história seja memorável, inesquecível! 

Assim, saber construir algo marcante, fazendo o "durante" valer a pena, é que faz toda diferença, ainda que acabe um dia, como sabemos que certamente acontecerá. É o caso desse meu aniversário de desamizade com minha amiga, ao qual me referi como um rompimento, mas pelo qual não sinto raiva, desprezo ou qualquer sentimento ruim.

Pelo contrário, sinto carinho por uma amizade incrível, que tem uma história marcante, que reúne uma série de situações memoráveis, repleta de sentimentos e coisas belas. Uma amizade belíssima que, por necessidade, findou-se. 

Pois é, deixar pessoas é preciso, mas amar as pessoas que deixamos, ou as que levamos conosco, também é.



3 de janeiro de 2016

Um encontro com a doença


E, de repente, ela chegou. Sorrateiramente, lentamente, disfarçadamente.

Deu um sinal aqui, outro lá... Não que ela quisesse ser percebida. Não, de modo algum. O trunfo dela está em não se fazer perceber, ainda que dê seus sinais enquanto se instala.

Hunf! E eu lá sou sujeito de parar para prestar atenção em sinal? Termino isto antes, resolvo aquilo primeiramente, deixe-me viver isto aqui intensamente; ora, são prioridades! Hoje, penso em como ela deve ter se divertido com o fato de ser ignorada.

Mas, como ela pode se deleitar por não ser notada? Por não ganhar atenção? Pois, foi assim que ela ganhou meu corpo, me tomou por completo e foi tirando de mim toda aquela atenção que eu lhe negara antes. 

Agora, ela é notável. Veja seus sinais, agora claros e evidentes. Como eles gritam, como eles tiram minha paz, meu sono, meu sonho. Encaram-me de frente todos os dias e, ousados, ameaçam minha resiliência, minhas crenças, minha fé, minha força (a física e a da alma).

E ela segue se divertindo, avançando inexoravelmente. Desgraçada! Preciso de ajuda, penso. Busco ajuda. Mas, em quem confiar? Ando de um lado para o outro, perdido, confuso, preocupado. 

Chego a cometer o erro de achar que estou frente a deuses. Ou, pelo menos, semi-deuses. Ué, não estou indo buscar a solução para ela? Não são eles que a matam? Não, engano. Eles são tão humanos quanto eu. Erram como eu, tem pré-conceitos (e preconceitos) como eu, falsas seguranças como eu. 

Então, aguardo. Algo há de acontecer, já que estou buscando ajuda. As coisas vão melhorar, não vão? Tem de melhorar... E ela avançando, cada vez mais poderosa, cada vez mais misteriosa, derradeira. 

Algumas vezes, chegamos a conversar. Senti-me num encontro com meu maior inimigo. Procurei olhar em seus olhos, mas ela não tinha face. Tentei questioná-la, argumentar e esbravejar, mas ela não tinha voz. Que ser é este, meu Deus?!

De onde você veio? Por que está aqui? O que eu fiz... Vamos, diga-me! O que eu fiz para merecer a sua presença em meu corpo, em minha vida? Estou seguindo em frente, tenho tantas batalhas a vencer, derrotas a reverter e vitórias a comemorar. Por que você chegou para me impedir? Desde quando está aqui, instalando-se? Intrusa!

Nada. Nenhuma reação ao meu enfrentamento. Silêncio. Um silêncio vencedor e astucioso. Mas, óbvio, para que me responder? Ela tem o jogo todo ao lado dela. E dá sinais derradeiros dessa verdade amarga, tirando-me, então, uma das minhas dádivas mais preciosas. 

Não pode ser verdade! Até isso? Não acredito que cheguei a este ponto! Vão se embora a rotina, os horários, a autossuficiência. Reflito, espero, aquiesço. Então, oro. Peço a Deus misericórdia, força, proteção. Isso ela não pode me tomar, não o meu espírito.  

Pelo menos o meu espírito está a salvo, já que ela parece estar me privando dos meus cinco sentidos pouco a pouco. O que pode ser tão poderoso assim? Como pode ter tanto poder destrutivo? Quem é você? E, então, a resposta chegou.

E com ela a assustadora revelação de que fui eu mesmo, eu e mais ninguém, que a convidei para entrar e se achegar em meu corpo, em minha vida. Agora, ela fala comigo, gesticula, expressa-se, sempre com um ar vanglorioso. "Sou uma velha conhecida, lembra-se? Há tempos nos conhecemos."

Não, não pode ser. "Desde que nos encontramos pela primeira vez, você gostou tanto que me encontrou várias vezes depois". Não, como eu pude? "E, em determinado momento, você me convidou para entrar". Quando? Quando fiz isso? Preciso descobrir! "É inútil. Você não saberá, não tem controle, mal sabe quantas vezes me encontrou, é negligente".

Este diálogo se seguiu por mais um tempo. Um mês ou mais, talvez, não sei precisar. Assim como não sei precisar quando a convidei para entrar, quantas vezes a encontrei, quantas vezes me deixei levar. Estúpido, fraco, inconsequente. Persisti no erro, mesmo sabendo que era um erro, e ela entrou.

Culpo-me até hoje por tê-la deixado entrar. É certo que muitas delas entram sem serem convidadas, mas esta não. Esta se achega conforme deixamos. E eu, errôneo, deixei! Um semi-deus me disse para esquecer e ficar com a cuca fresca. "Vida que segue". Outro, quis me especular. E um último me tratou, sem grandes rodeios.

E, então, ela foi embora. Já havia vencido aquela batalha mesmo. Foi saindo, vitoriosa, vagarosamente. Recolhendo seus sinais lentamente, devolvendo meus cinco sentidos, permitindo minha recuperação.

E, hoje, o que me resta é a sua indiferença, a culpa e o medo. Medo de que eu a encontre novamente. Medo de que eu caia no erro, maldito erro, de deixá-la entrar novamente. Medo de, mais uma vez, errar. É o que sou, um ser humano medroso, com medo de si mesmo.




20 de dezembro de 2015

Relações com a Comunidade na novela Totalmente Demais

Eu adoro quando a ficção nos dá bons exemplos dos conceitos de comunicação! É uma forma lúdica de abordar temas técnicos que estão presentes todos os dias em nossas vidas. Até hoje, quando quero falar de Mídia Espontânea e Assessoria de Imprensa recorro a um capítulo da novela Belíssima. E quantos RPs não ficaram injuriados quando o personagem de Gianecchini, na novela Passione, foi chamado de relações-públicas apenas por conta de sua beleza?




Pois é, a ficção nos brinda com excelentes cases, e não é só nas novelas de Silvio de Abreu que vemos isto. Recentemente, a atual novela das 19h, Totalmente Demais, mostrou um belo exemplo de como não fazer Relações com a Comunidade, mais especificamente no capítulo que foi ao ar no dia 07 de dezembro. Quem acompanha a novela sabe que os personagens Fabinho e Jonatas têm tentado se infiltrar na comunidade que fica perto da empresa fabricante de cosméticos Bastille, porém sem sucesso.



O que acontece é que a Bastille prejudica as águas desta comunidade com sua produção, geradora de poluentes. Então, para mitigar tais danos, Fabinho, filho do presidente da empresa, desenvolveu um projeto de relações com a comunidade, no qual, inclusive, os moradores trabalhariam neste projeto ajudando a empresa. A ideia parece boa, afinal, além de tentar reverter os danos causados, a empresa emprega os moradores locais.

Mas, o problema não foi no planejamento do projeto, foi na execução. Quem assistiu a este capítulo do dia 07 viu a quantidade de erros que os jovens da empresa cometeram em sua segunda visita à comunidade. Além da entrada descabida no local, com um ostentoso carro do ano e uma câmera filmadora nas mãos, eles tentaram resolver um passo importante do projeto no meio da rua, a céu aberto em um momento "x" do dia. Sem avisar nada antes, sem agendar, sem apoio algum. 



Nestas condições, obviamente eles seriam mal recebidos. Contudo, sempre dá para piorar. E piorou mesmo, quando Fabinho tem a brilhante ideia de pegar um maço de dinheiro e começar a contá-lo na frente de todo mundo. O dinheiro seria para pagar os moradores cadastrados que trabalhariam no projeto pela primeira semana de atuação, mas acabou passando por dinheiro usado para comprar drogas pela polícia local. No fim das contas, Fabinho foi detido e levado à delegacia. 


Você pode conferir a cena completa no site do Gshow, de onde tirei estes prints.


Relevando os aspectos dramáticos da cena, que, claro, dão o tom de uma obra melodramática, a forma como tudo aconteceu é muito interessante para analisarmos, do ponto de vista das Relações Públicas, um projeto que, em teoria, teve um planejamento adequado, mas uma péssima execução. Certamente, se a Bastille tivesse um RP competente em seu departamento de Marketing isso não teria acontecido. 

Assistindo à cena, me lembrei de minha experiência mais relevante com Relações com a Comunidade, logo em meu primeiro trabalho como relações-públicas, numa grande empresa de mineração da Região Metropolitana de Campinas. Assim como no caso da Bastille, as atividades desta empresa impactavam a comunidade em seu entorno e a organização queria fazer algo para tornar essa relação mais amigável, por questões óbvias de garantir a permanência de suas atividades no local sem empecilhos. 

Por isso, inspirado pelo caso da Totalmente Demais, elenquei 5 pontos básicos que não podem faltar em qualquer projeto de Relações com a Comunidade. Olha só:

1 - Pesquisa e Diagnóstico

Antes de pensar e planejar qualquer coisa, a empresa que deseja fazer algo pela comunidade ao seu redor precisa de um bom projeto de pesquisa, a fim de chegar a um diagnóstico preciso da atual situação. Afinal, quais são os problemas que a organização causa à comunidade? Como eles repercutem no local? Qual é a imagem que a comunidade tem da empresa? Levantar estas hipóteses de dentro de uma sala com ar condicionado na empresa é completamente diferente de ir até a comunidade e sentir na pele.

Para isso, há vários recursos possíveis e, na maior parte das vezes, a técnica de auditoria de opinião é o mais eficaz. Se a empresa deseja se precaver de que a comunidade saiba de sua pesquisa ou não tem profissionais experientes e/ou suficientes para isso, contratar um instituto de pesquisa sério pode ser útil. Nesta auditoria é crucial mapear as principais entidades locais, os formadores de opinião e os principais pontos de danos. 



Por fim, cuide da apresentação do diagnóstico final à empresa. Pois, a maior parte das empresas se propõe a fazer um projeto com a comunidade porque teme que suas atividades sejam prejudicadas. Infelizmente, nem sempre a direção corporativa está conscientizada da importância disso e será papel do RP travar esta luta. Quem já passou por isso sabe que, de fato, é uma luta. Por isso, levar fotos dos locais visitados, gravação de depoimentos (se possível e cabível) dos moradores e "aspas" dos depoimentos coletados ajuda nesta conscientização (ou, ao menos, na sensibilização para convencimento).  

2 - Planejamento

Este não foi o problema da Bastille na novela, mas é onde as equipes de comunicação costumam derrapar. Na ânsia de colocar logo o projeto em prática após a aprovação, desencadeia-se uma série de ações soltas o mais rápido possível e tudo se perde em determinado momento. E pior, nada é medido e acompanhado e, no futuro, não se terá recursos para mensurar e apresentar resultados factíveis à direção da organização. 


Um dos melhores livros que já li sobre planejamento, de Joe Marconi. Fica a dica! 


Por isso, caros comunicólogos, não negligenciem o tão importante planejamento. Ele não é um amontoado de papel que só serve quando vemos teorias na graduação. Usem o planejamento a seu favor lembrando de sua estrutura básica, após ter fechado o diagnóstico e com um bom prognóstico em mãos: objetivos (claros e mensuráveis), públicos de interesse, estratégias, táticas, cronograma e orçamento. Sem isso, não será possível aprovar e nem terminar nada, sobretudo numa organização de grande porte.

3 - Faça parcerias

Ver os jovens da Bastille entrando do nada na comunidade local achando que seriam bem recebidos chega a ser cômico. Ora, dentro da empresa está tudo planejado, aprovado e faz sentido. Mas, o que a comunidade tem a ver com isso tudo? Ninguém sabe das intenções da empresa. Portanto, é essencial que se faça fortes parcerias oficiais com as pessoas certas, para que a chegada da empresa à comunidade não seja um evento estranho.


Este livro do Gutierrez Fortes tem um excelente capítulo sobre relações comunitárias, detalhando, inclusive, as ferramentas de pesquisa para isso. Também indico!


Isso, certamente, deverá estar no planejamento, e fará parte do trabalho da equipe de comunicação ir pessoalmente aos órgãos públicos, às entidades e lideranças locais, aos formadores de opinião e à segurança local apresentar o projeto da empresa. E o mais importante: ter a autorização oficial (no caso do poder público) e o consentimento dos mesmos para entrar na comunidade e fazer qualquer coisa ali. Oficialize, autorize e registre tudo! Acredite, isso fará total diferença na hora de proteger a empresa de qualquer dano e na maneira como a equipe será recebida pela comunidade.

4 - Comunique!

Esta, geralmente, é a parte que nós, comunicólogos, mais gostamos de fazer. Após tanta pesquisa, planejamento e conversas com várias pessoas para viabilizar um projeto, comunicar suas ações costuma ser a parte mais "divertida", sobretudo porque envolve criação.

Este é o momento em que a comunidade fica sabendo do projeto que a empresa quer colocar em prática, e comunicá-lo de forma adequada, pelos meios e canais de comunicação corretos, é determinante para o seu sucesso. Neste caso, costumamos lidar com canais de comunicação bem alternativos, pois estamos falando de uma comunidade local. Assim, não é atípico termos que atuar, por exemplo, com carros de som, panfletagem e cartazes em locais como bares, postos de saúde e escolas.



Mas, se estamos atuando numa comunidade maior, como um aglomerado de bairros na proporção de uma cidade pequena, pode-se também partir para meios como rádio e jornais de bairro. Esta é a parte em que os criativos trabalham, produzindo peças, escrevendo textos e criando audiovisuais que serão utilizados para impactar a comunidade a respeito do projeto. Lembrem-se: não deem uma de Fabinho chegando com um carro do ano falando do projeto no meio da rua com quem estiver passando.

5 - Use boas ações

Finalmente, é hora do projeto acontecer! E, para o seu sucesso, é preciso aplicar boas ações. Aqui, um erro muito comum é a empresa cair no engano do assistencialismo. Cuidado com isso! Dar assistência é papel do poder público, não do setor privado. Sem falar que é péssimo a empresa tomar a postura de "vem cá que vou te dar umas cestas básicas e você não reclama do que eu to fazendo aqui, ta bom?". Soa como comprar as pessoas e qualquer ação neste sentido deve ser categoricamente evitada.

Por isso, opte por ações que envolvam a comunidade e a empresa, no sentido de que ambas devem atuar em conjunto para fazer do espaço que dividem um lugar melhor para viver. Trabalhe sob o conceito de espaço conjunto, em que uma parte ajuda a outra, e engaje empresa e comunidade em prol de um interesse em comum. Por exemplo, a ideia de Fabinho de oferecer emprego às pessoas que ajudariam a empresa a recuperar o ambiente é uma boa.

Outro exemplo interessante é quando a empresa abre suas portas para a comunidade e organiza visitas à sua estrutura, sobretudo para mostrar de perto como estão trabalhando internamente para mitigar os danos no ambiente local. Isso passa credibilidade, aproxima as pessoas e tira a imagem da empresa como "vilã". Além disso, criar canais para que a comunidade se comunique direta e rapidamente com a empresa no caso de algum problema é sensacional. Pode ser um telefone, email ou até aplicativo de troca de mensagens; assim, em vez de reclamar a um fiscal público e causar um sério dano (como uma pesada multa), a comunidade pede ajuda primeiramente à empresa. 



Com esses passos básicos é possível fazer Relações com a Comunidade de maneira correta e eficaz. Sobretudo, acredito que, vendo cada passo, seja possível entender que se trata de algo complexo que precisa ser cuidadosamente pensado, e não uma "ideia brilhante" que se coloca em prática entrando do nada na comunidade. E o mais importante: é algo que precisa ser encabeçado por um responsável técnico.

Neste ponto, sei que existe muita discussão em torno de quem deve fazer isso e que, geralmente, o Marketing acaba abraçando a responsabilidade. Mas, defendo sempre que o profissional mais capacitado para Relações Comunitárias seja o relações-públicas, e de preferência um RP que já tenha alguma experiência com a área.

É importante lembrar que o RP é o único profissional, no rol da grande área que é a Comunicação, que pode assinar um projeto desses como responsável técnico. Poucos levam isso a sério, mas as empresas deveriam fazê-lo. Ora, a sua empresa não deixa qualquer um, senão um bom engenheiro, assinar como responsável técnico o projeto que vai erguer o seu prédio, não é mesmo? 


“Com relação à comunidade, a empresa deve participar como agente que saiba encarar os problemas, as necessidades e as controvérsias com sinceridade, sem querer fazer somente ‘imagem’ positiva da instituição, descompromissada e alienada da realidade social que enfrenta. É preciso deixar de lado essa tendência de querer utilizar as relações públicas para ‘enganar’. Se a empresa está fazendo qualquer coisa que prejudica a comunidade, é necessário, antes de mais nada, que ela providencie medidas técnicas para sanar o problema”
Margarida Kunsch, 1984
(Com adaptações)

Portanto, mãos à obra, pessoal! Estamos em 2015 e o fato da empresa se preocupar com o impacto de suas atividades no meio ambiente já é algo sine qua non para a sua existência. E se você chegou ao final deste post e gostaria de trocar mais ideias a respeito ou precisa de ajuda com este tema, deixe um comentário abaixo. Será um prazer interagirmos!


P.S. - um agradecimento especial ao relações-públicas Celso Alexandre, da Ouvidor Comunicação, que foi meu grande mestre em Relações Comunitárias. Impossível não me lembrar com gratidão de você, Celso, ao falar de um tema como este.